quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Crianças hoje, adultos amanhã

(texto escrito por Gabriel Carneiro Costa)

A minha experiência se baseia muito no atendimento à adultos, tanto em processos individuais quanto em workshops ou trabalhos em grupos. E se tratando de adultos, pois aspectos se tornaram muito relevantes para desenvolver este projeto do Pais Sem Pressa.
            O primeiro aspecto refere-se a grande observação a respeito das angústias dos pais de hoje. Nunca tivemos uma geração de pais tão vigilantes dos seus filhos e ao mesmo tempo tão ausentes. Estes pais pagam para rastrear o filho por GPS, mapeiam o que os filhos assistem na web, controlam o que veem na TV, assistem por web cam como os filhos estão se saindo na escola, levam a diversos profissionais para todos os tipos de acompanhamento. Isto tudo no meio de uma tumultuada e tensa agenda de trabalho. É a ansiedade sendo multiplicada ao invés de neutralizada. Ao mesmo tempo, estão muito distraídos dos papéis de pais no que se refere a presença, não somente quantitativa quanto qualitativa. O tempo ficou escasso, o cansaço ficou elevado, a tecnologia nos deixa on line o tempo todo e as diversas opções do que podemos fazer em nossos tempos livres nos afastaram de estarmos mais próximos de corpo presente dos nossos filhos. Então começa também a surgir uma geração de pais culpados, e exigentes consigo mesmo. Depositam no material e na ascenção social a solução para suas ausências, ensinando aos seus filhos que este é o caminho. Que por sua vez, por uma questão lógica, irá querer a mesma ascenção ainda mais rápido visto que este é o caminho aprendido. Estamos nos desconectando de nós mesmos para vivermos um conceito equivocado de rede. A idéia colaborativa não é viver focado somente no “nós”. Mas sim no “eu + nós”. Lembre-se: “em caso de emergência máscaras de oxigênio caíram a sua frente. Certifique-se que a mesma esta devidamente colocada em você para então ajudar aos demais”. Estamos esquecendo da parte “primeiro cuide da sua saúde, depois cuide da saúde dos outros”. Estamos mais preocupados em parecer sermos bons pais do que sendo. Postamos nas redes sociais imagens lindas de presença com os filhos, mas estamos deixando de viver as imagens lindas com os filhos. E mostrar é diferente de viver. Está na hora dos pais pararem de pensar que são bons pais e começarem a ser bons pais. E isto é muito, mas muito diferente. E na minha experiência, isto já está na consciência coletiva, apenas não sabemos como resolver. Vivemos neste automático que não questionamos o que pode ser feito de diferentes. Todos os pais querem mudança, mas nem todos os pais querem mudar. Este foi o primeiro gatilho que me moveu a criar o movimento Pais Sem Pressa.
            O segundo aspecto é as crianças que os adultos se tornam. A grande maioria das pessoas que cruzam pelo meu trabalho não conseguem alcançar a vida que desejam. Passam muito tempo tentando, mas sem resultados assertivos. Muita gente apenas sobrevive, e infelizmente poucos vivem. Se tornam adultos murchos. A vida retirou deles todo o brilho, a alegria, a esperança, o amor, a energia. E estas pessoas também me instigam. O que ocorreu no caminho desta pessoa? Não acredito que isto seja genético ou apenas azar do destino. Algo o levou até este ponto e este algo me interessa na condição observador do comportamento humano.

            Diante das experiências mais profundas, geralmente em workshops de imersão, utilizo de ferramentas de conexão com a criança interior de cada um. E na perspectiva de um adulto, não é possível mudar a criança que fomos, mas é possível mudar a criança que temos dentro de nós. Nestes últimos anos acumulando este tipo de experiência, percebo que muito destas pessoas que murcharam ao longo da vida, são frutos de uma educação familiar muito carente. Não tiveram experiências positivas e saudáveis nas suas relações parentais. Iremos abordar diversos temas ao longo do livro, mas o ponto-chave é perceber que não há a mínima possibilidade de desenvolver presença, afeto e permissão em um estilo de vida pressionado, acelerado e com pouco espaço para diálogos profundos. E é neste ponto que mais uma vez minha experiência acumulada me leva a pensar na filosofia Pais Sem Pressa que estaremos debatendo neste blog.

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